Helena Meirelles, a real dama da viola brasileira

Em novembro de 1993 a mato-grossense-do-sul Helena Meirelles (1924-2005) foi eleita como uma das melhores guitarristas daquele mês pela revista musical estadunidense Guitar Player, sediada na cidade de Nova Iorque. Naquele ano, Helena Meirelles tivera alguns de seus solos enviados pelo sobrinho Mário de Araújo à revista, que separou Guaxo e Araponga, as quais executou durante 30 dias no seu serviço de audição por telefone dirigido a seus leitores – guitarristas em todo o mundo. Somente após descoberta pela revista é que Dona Helena, como, carinhosamente, era chamada, lançou seu primeiro disco: Raiz pantaneira (Eldorado), com 14 músicas. No Brasil, quem toca a viola caipira, de 10 cordas, é chamado de violeiro e não guitarrista, já que o termo guitarra, aqui, designa o instrumento eletrônico de seis cordas.

Por essa ocasião, enquanto leitores da revista estadunidense ouviam Guaxo e Araponga – do Domínio Público –, aqui no Brasil a população quedava diante da expectativa do Plano Real, programa de estabilização econômica, anunciado pelo então ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, sob o aval do presidente Itamar Franco. Daí que mais de um quarto dos 156 milhões de habitantes do País, eufórico, ainda festejava a preservação do presidencialismo, que fora assegurado nas urnas em abril daquele mesmo ano por perto de 44 milhões de eleitores, dos 67 milhões que votaram – em um universo de 90 milhões de eleitores (Números conforme Wikipédia/IBGE).

A título de informação, com a Constituição de 1891 o Brasil adotou o presidencialismo – trocado pelo parlamentarismo, entre 1961 e 1963, durante o mandato do presidente João Goulart. O regime presidencialista foi reafirmado pela Constituição de 1988, mas tendo o eleitorado que definir em plebiscito a forma (república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) que deveriam vigorar no País. O que foi feito.

Confiando no real, a nova moeda brasileira, que media forças com o dólar estadunidense em ilusória queda de braço, os consumidores tinham vista e ouvido voltados para produtos importados e não escutaram o som das cordas da viola caipira daquela mato-grossense-do-sul, à época com 69 anos de idade, e que acabara de inebriar roqueiros do quilate de Eric Clapton.

Os críticos da revista estadunidense mostraram-se entusiasmados com a técnica apurada e a criatividade de uma instrumentista que não frequentara escola de música, mas desenvolvera um estilo próprio,  mesmo sem saber ler ou escrever. A preocupação da Dama da Viola, como passara a ser chamada, era com o preciosismo. Ela não se expressara exatamente assim; dissera, no seu linguajar pantaneiro, que seu cuidado era com o toque – no caso, a execução da música.

“Minha música fica na cabeça…”

“Minha música fica na cabeça, não sei ler nem escrever, mas sei quando toco bem ou toco mal”, falara ao telefone para o Caderno 2, do jornal A Tarde (Salvador, 1998), com a autoridade de quem já havia lançado três discos. Ao todo, a violeira tem gravado quatro álbuns, a saber, Helena Meirelles (Eldorado, 1994); Flor da guavira (Eldorado, 1996); Raiz pantaneira (Eldorado, 1997); e Helena Meirelles ao vivo – De volta ao Pantanal (Sapucay, 2002); e duas canções na compilação Os bambas da viola (Kuarup, 2004).

Ela se preocupava mais com a feição estilística e menos com a bronquite crônica que a perseguia desde os tempos vividos nas margens do rio Pardo, em Campo Grande, no atual estado do Mato Grosso do Sul, onde nascera a agosto de 1924. “A tosse não me deixa; um dia eu amanheço bem, outro ela se agarra na minha garganta e passo horas tossindo”, desconversava, na época, quando perguntada sobre seu estado de saúde, que a obrigara a se transferir para São Paulo, quando então saíra do anonimato.

“Tenho as músicas na memória e preciso ensaiar, para não esquecer, pois não sei fazer essas coisas de partitura e pauta, então treino de duas a três vezes (horas) por dia”, contara na entrevista, mas lamentara – na ocasião – não poder dispor de todos os seus músicos. Apenas seu filho, Francisco da Costa Machado, ao violão, estava participando das sessões familiares na cidade de Presidente Epitácio, interior de São Paulo. Para Helena Meirelles, o som do baixo era vital. “O toque do baixo é importante na minha música, pois dá vida, mais beleza, realça o ritmo”, fazia questão de dizer. No seu primeiro disco, o baixista foi o sobrinho Milton Araújo; no segundo, Pedrão; no terceiro, outro parente, Gesílio Pereira; e no último, Ailton Torres.

A apuração da violeira era extrema. Durante a sessão de gravação do CD Flor da guavira, o baixista Pedrão teve uma corda do instrumento partida na parte final da rancheira Limpa banco. “Foi na sexta faixa, ele tocou com uma corda a menos, a única falha no disco”, dissera ela.

Seu vocabulário regional carregado não a impedia de demonstrar o conhecimento que tinha da música pantaneira, de onde extraíra sequências brilhantes e apuradas. “Eu aprendi a tocar com os peões e a vaqueirama das comitivas boiadeiras (grupo de trabalhadores) no Mato Grosso”, e ria de suas aventuras. Isso, nos anos 1930, quando a divisão do estado de Mato Grosso sequer era imaginada pelos bravios boiadeiros da região (a separação ocorreu em 1979).

“Eu me lembro de meu tio Leôncio Meirelles, que tocava polca, guarânia e rasqueado, e do samba cantado por uns baianos que chegaram lá em Porto 15 (embarcadouro de gado nas margens do rio Paraná, divisa com o estado de São Paulo) para trabalhar como meeiros na plantação de capim e ficaram na casa de meus pais e me ensinaram a cantar e a dançar”, dissera, comentando que a partir dali jamais deixara de tocar samba. No disco Raiz pantaneira ela gravou o samba Guiomar, de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, ao lado de Sérgio Reis. No quarto disco incluiu a composição Samba do Zé, composto por ela para o álbum, que terminou gravado ao vivo, a partir de um show em Campo Grande.

Mas não foi o samba que projetou Helena Meirelles nos Estados Unidos e, depois, revelou-a ao Brasil. Foi sua maestria na execução dos instrumentais Guaxo – em que ela reproduz, no violão dinâmico, o ruído do voo deste pássaro, também chamado de guaxe; e Araponga – em que ela imita o som do canto deste pássaro, chamado de ferreiro. Por conta dessas duas performances Dona Helena recebeu o prêmio Spotlight Artist (revelação) e teve sua palheta incluída entre as 100 mais da revista, juntando-se às de roqueiros, jazzistas e bluesmen como Eric Clapton, George Benson, Keith Richards. Também foi convidada a se apresentar nos Estados Unidos, mas uma crise pulmonar não a deixou ir. Mal que a vitimou no dia 29 de setembro de 2005.

Na peça Guaxo, aos 19 segundos da execução, Helena reproduz o voo do guaxe, pássaro presente na Amazônia; e do Pernambuco até o Rio Grande Sul, e mais Goiás e Mato Grosso do Sul. OUÇA AQUI!

Em Araponga, aos 40 segundos, Helena reproduz o canto da araponga, chamado de ferreiro, existente no Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. OUÇA AQUI!

Duas apresentações em Salvador

Antes de gravar o primeiro disco, aos 70 anos, Helena Meirelles era desconhecida do País e seus parentes davam-na como falecida, até reaparecer, em São Paulo, em 1986. Dona Helena jamais escondeu sua história de violeira, vivida entre o som do berrante, o guizo do cargueiro (guia de besta de carga), a poeira da boiada, o grito da peonada; os dias de vida como lavadeira, benzedeira, cozinheira e parteira (fez o parto de seus 11 filhos) e as noites de cantorias e de toques nos bordéis, em troca de pouso, comida e bebida.

Helena Meirelles esteve em Salvador duas vezes (em 1995, no Teatro Castro Alves, e em 1998, em uma apresentação no Pelourinho). “Guardo uma lembrança muito bonita do Pelourinho, onde teve uma senhora, já com idade perto da minha, que dançou e cantou com um copo de pinga na mão, muito alegre, e isso me deixou feliz e com vontade de voltar à Bahia, a Salvador. Gosto dos baianos e eles gostam de mim e da minha música, tanto os da Bahia como os que vivem em São Paulo e vão ver meu show. Os baianos são alegres e gostam de música” – lembrou na ocasião.

Prêmios
• Em 1993 foi eleita pela revista americana Guitar Player (com voto de Eric Clapton), como uma das 100 melhores instrumentistas do mundo.
• Em 2012 foi incluída na lista dos 30 maiores ícones brasileiros do violão e da viola, categoria Raízes Brasileiras, da revista Rolling Stone (Brasil).

Álbuns
• 1994 – Helena Meirelles
• 1996 – Flor de guavira
• 1997 – Raiz pantaneira
• 2002 – Helena Meirelles ao vivo – De volta ao Pantanal
• 2004 – Os bambas da viola (compilação com dois temas de Helena Meirelles)

Filmes
• Helena Meirelles – A Dama da Viola (2004), direção de Francisco de Paula;
• Dona Helena (2006) – direção de Dainara Toffoli.


2 comentários em “Helena Meirelles, a real dama da viola brasileira

  1. Excelente documentário sobre D. Helena Meirelles, um dos grandes valores da música brasileira, pouco conhecido, que vc divulga com grande maestria!
    Vale a pena ser lido e divulgado…. valores ocultos da Cultura Brasileira!

    Curtido por 1 pessoa

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