O sertanejo na obra musical de Roberto Carlos

Roberto Carlos (1941), líder principal do movimento musical brasileiro Jovem Guarda, ocorrido entre 1965 e início dos anos 1970, e artista latino-americano com mais discos vendidos no mundo 140 milhões , sempre acalentou o desejo de gravar um álbum com canções sertanejas.

Em parte, este anseio materializou-se em 1992, com a gravação, em ritmo de bolero, do rasqueado Nova flor, de Palmeira (1918-1967) e Mário Zan (1920-2006), mas com o título Dizem que um homem não deve chorar.

Nada estranho, para quem iniciou a carreira com sambas em 1959 (João e Maria; e Fora do tom) e boleros em 1961 (Não é por mim; Olhando estrelas; e Solo per te), e ficou em quinto lugar no III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967, com o samba bossa Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná. No ano seguinte, chegou à finalíssima, com a valsa Madrasta, de Renato Teixeira e Beto Ruschel.

O último dos encontros de RC com o sertanejo ocorreu em 2010, mais exatamente 10 de março, no show pela celebração dos seus 50 anos de carreira, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, quando ele gravou o álbum duplo Emoções sertanejas. O álbum reúne 21 canções, duas das quais versões, dele e Erasmo Carlos, com interpretação de cantores e cantoras da música sertaneja.

Da música sertaneja, não caipira! É bom que se esclareça.

A diferença entre uma e outra, escreveu o jornalista José Hamilton Ribeiro (Música Caipira, Globo, p. 32, 2006), com base no musicólogo Zuza Homem de Mello (1933-2020), está em que sertanejo é “gênero” e caipira é “espécie”. Desse modo, comparativamente, e tomando o macaco como exemplo, temos que todos são primatas (gênero), dos quais uma parte é de chimpanzés (espécie).

O sertanejo, digamos assim, é a qualificação geral do cancioneiro rural brasileiro. É mais amplo, mais abrangente e traz no seu bojo os diversos ritmos que há no País, entre os quais o caipira, contemporaneamente denominado de música raiz e que canta o modo de vida do interiorano em oposição à vida do cidadão urbano. O baião, o forró e outros ritmos (espécie) são, igualmente, sertanejos (gênero).

Tanto assim é que o violeiro Almir Sater disse para a jornalista e escritora Rosa Nepomuceno (Música Caipira – da roça ao rodeio, Editora 34, p. 397, 1999): “Das minhas composições, 80% não tem nada a ver com música caipira. Tocando em frente é um rasqueado, só que não é tocado como rasqueado (…) O violeiro toca é música de viola, mas não é caipira.”

Como escreveu Hamilton Ribeiro: “A música caipira é uma gaveta dentro de um armário, com outras gavetas…”. Eu digo que a canção caipira canta os problemas, hábitos e a vida no interior de uma vasta região brasileira, que abrange os estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Uma ligação antiga

Sempre entusiasmado com o que tem ouvido desde os nove anos de idade, época em que se apresentou pela primeira vez em público, cantando o bolero Amor y más amor (J.Remignard – R.Baud – B.Capo), na cidade de Cachoeiro do Itapemirim (ES), onde nasceu, Roberto Carlos jamais deixou de atualizar o conteúdo da sua obra musical.

Um dos seus ídolos de infância foi Bob Nelson (1918-2009), que cantava versões aportuguesadas de música country, estilo rural norte-americana. Também ouvia os sanfoneiros Luiz Gonzaga (1912-1989) e Pedro Raimundo (1906-1973) e a dupla caipira Tonico (1917-1994) e Tinoco (1920-2012). Em 2010, Roberto Carlos homenageou Tinoco, durante a gravação do álbum Emoções sertanejas.

Nos tempos da Jovem Guarda, RC sofrera influência de Elvis Presley e The Beatles; antes, ele se inebriara com as canções de Nelson Gonçalves (1919-1998), Alberto Fortuna (1922-1995) e Tito Madi (1929-2018). Daí seu trabalho apresentar, ao longo de 60 anos de carreira, uma variedade de ritmos, todos, sistematicamente, conforme seu próprio gosto musical, que é marcado por alterações gradativas.

Em 1996, em entrevista ao jornalista Luís Carlos Garrido, do jornal A Tarde, de Salvador, sobre se “estabelece algum paralelo entre as diversas fases da sua carreira”, RC disse: “Sou o mesmo de sempre, logicamente com mais experiência e mais maduro. É claro que isso reflete no meu comportamento. Hoje, penso mais no que faço e no que falo, mas a essência é a mesa.”

O conjunto da obra de Roberto Carlos avaliza que a música, presente na evolução cultural dos povos, é produto de aprendizagem contínua. A respeito de cultura, o antropólogo britânico sir Edward B. Tylor definiu, em 1871, como o conjunto dos “conhecimentos, das crenças, dos costumes, dos valores e de qualquer outra prática ou hábito adquirido pelos homens e pelas mulheres como membros de uma sociedade”. (Enciclopédia Barsa Universal, Editora Planeta, p.1728, 2007).

A melodia de As Curvas da estrada de Santos (1969), Jesus Cristo (1970) e Todos estão surdos (1971), por exemplo, é do período em que RC se dizia influenciado pelo soul – gênero musical surgido nos Estados Unidos entre as décadas de 1950 e 1960. Outro ritmo entre os muitos que gravitam ao redor de um RC de forte viés romântico é o fox, usado como padrão rítmico, por exemplo, nas canções Música suave (1978) e Emoções (1981), reconhecidamente das mais expressivas que gravou.

Por essa época, de busca de variedades, e o iminente namoro com o estilo sertanejo, dois dos programas televisivos de final de ano de RC contaram com participação de duplas sertanejas: Zezé di Camargo e Luciano, em 1984; Chrystian e Ralf; e Chitãozinho e Xororó, em 1986. Anos depois, em 1992, foi que nasceu a gravação de Dizem que um homem não deve chorar.

Segundo estimativas citadas pela Wikipédia, com base na Pro-Música Brasil (PMB), a antiga Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o cantor, com mais de 140 milhões de discos vendidos, ocupa o primeiro lugar em vendagem no Brasil e se coloca entre os 20 primeiros no mundo, na faixa dos que venderam entre 100 e 199 milhões de discos.

Em novembro de 2020, o Grammy Latino prestou homenagem a Roberto Carlos, Júlio Iglesias e Juan Luis Guerra. “Os três veteranos que marcaram o final da 21ª edição do mais importante prêmio da música latina”, escreveu o jornal argentino El Día, em edição do dia 20. Em 2015, Roberto fora Personalidade do Ano da Academia Latina da Gravação, assim como Júlio Iglesias (2001) e Juan Luis Guerra (2007).

A relação de RC com a canção sertaneja reaparece em O velho caminhoneiro, no álbum de 1993. Composta nos padrões da moda de viola, a toada traz versos de sete sílabas, rimas nos pares. Não chega a ser uma obra de arte, da mesma forma que também não o são as tentativas seguintes em compor para um desejado disco do gênero, que acabou não saindo do projeto. Mas, inegavelmente, a afinidade do compositor e do intérprete com o sertanejo ficou mais forte. Em 2006, no CD e no DVD Duetos, ele volta com a dupla Chitãozinho e Xororó, cantando Amazônia (de 1991) e os cantores Sérgio Reis e Almir Sater na moda de viola O rei do gado (Teddy Vieira), gravada em 1996.

No princípio do ano 2000, RC chegou a iniciar a concepção do almejado disco sertanejo: tinha quatro canções escolhidas, uma delas inédita, mas suspendeu o projeto (sua mulher, Maria Rita, falecera em 19 de dezembro de 1999).

A lista foi guardada e, em 2005, as quatro canções: Arrasta uma cadeira, O baile da fazenda, Coração sertanejo e Índia, ao lado de cinco outras (Promessa, A volta, O amor é mais, Meu pequeno Cachoeiro e Loving you), diametralmente opostas, saíram no álbum anual, que ele dedicou a Maria Rita.

Em Índia (Manuel Ortiz Guerrero – J. Asuncion Flores, versão de José Fortuna), Roberto não fica atrás dos tradicionais intérpretes desta histórica guarânia. A canção aparece também no disco da trilha sonora nacional da novela Alma Gêmea, da TV Globo, 2005.

Neste que seria o disco sertanejo da sua carreira, Roberto Carlos dá uma interpretação própria, intimista, em Coração Sertanejo (Neuma Moraes e Neon Moraes), um sucesso de Chitãozinho e Xororó em 1996. Em O baile da fazenda, um arrasta-pé do álbum de 1998, ele é acompanhado pelo sanfoneiro Dominguinhos.

Já a faixa inédita Arrasta uma cadeira (Roberto e Erasmo Carlos) é uma guarânia, cantada com Chitãozinho e Chororó, que se juntam aos esforços de RC de trazer a música sertaneja para o conjunto da sua discografia.

Roberto e os sertanejos, no show do Ibirapuera, em 2010.

O namoro de RC com a música sertaneja diminuiu o ritmo a partir de 2010, coincidentemente, após o encontro com grandes nomes do estilo, no show do Ibirapuera. Lá ele abraçou, e pode ter se despedido, de artistas como Milionário, César Menotti & Fabiano, Gian & Giovani, Bruno & Marrone, Sérgio Reis, Almir Sater, Roberta Miranda, Zezé Di Camargo & Luciano, Daniel, Rionegro & Solimões, Leonardo e Chitãozinho & Xororó.

A história de Nova flor

O bolero Dizem que um homem não deve chorar é uma adaptação, de Roberto e Erasmo, da versão espanhola de Pepe Avila, Los hombres no deben llorar, gravada no Brasil por Julio César del Paraguay, em 1959; e em 1996, com grande sucesso no México, por Pedro Fernández, tema da novela Sentimientos Ajenos, do grupo Televisa.

Desde que composta, essa canção de Palmeira e Mário Zan foi gravada por mais de 200 intérpretes na América Latina, Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha, Áustria, China e Japão. A primeira vez, no Brasil, com o título original de Nova flor, foi feita pelo Duo Irmãs Celeste, 1958, pela Chantecler. A gravação feita por Palmeira e Biá veio em 1959, pela mesma gravadora.

Gravação em 78 rpm de Nova Flor, em 1958.

Em inglês, na versão de Arthur Hamilton, recebeu o título de Love Me Like a Stranger, e foi gravada em 1975, pelo grupo vocal norte-americano The Letterman, e aparece na novela Pecado Capital, da Rede Globo, 1976.

O trabalho com o gênero sertanejo pode não ter obtido o resultado que Roberto Carlos, profissional perfeccionista e de grande quilate, tenha desejado, mas suas investidas trouxeram benefícios para a canção sertaneja. Pode-se não gostar, mas não se pode negar.

FONTES – Além das fontes já citadas no texto, serviram de base de consultas as seguintes publicações: Enciclopédia da Música Sertaneja (Publifolha, 2000), Roberto Carlos, Obra Completa (Beth Cançado, Editora Corte, 1997), Aquarela Sertaneja (Beth Cançado, Editora Corte, 1998); Jornal A Tarde, Caderno 2, Salvador/Ba, 5 de dezembro de 1996.
Sites Roberto Carlos <https://www.robertocarlos.com/>; Discogs <https://www.discogs.com/pt_BR/>; Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) <https://immub.org/>; SecondHandSongs <https://secondhandsongs.com/>, acessados entre os dias 26 e 29 de janeiro de 2021.
Discografia Brasileira – Instituto Moreira Salles <https://discografiabrasileira.com.br/>, acessado dia 29 de janeiro de 2021.
Crédito das fotos: Roberto Carlos, Sonic Music; Sertanejos, site Roberto Carlos; e disco em 78 rpm do Duo Irmãs Celeste, Mercado Livre.

2 comentários em “O sertanejo na obra musical de Roberto Carlos

  1. Adorei o texto, uma verdadeira aula, com referências, autorias, datas e ainda um fundo musical!!!

    Muito grata pela contribuição à nossa cultura.

    Curtido por 1 pessoa

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