A dança e o canto do lundu

Com o tempo, o rebolado e a quebra de quadris, na dança, sofreram modificações; o canto foi esquecido.

Pintura do alemão Johann Moritz Rugendas, que mostra a imagem da dança africana lundu

Imaginando que se pudesse escrever a história da música popular brasileira em uma pauta, e tomássemos a faixa que vai da época da Colonização ao início do século XX, mais precisamente 1917, ano da gravação do que seria o primeiro samba (Pelo telefone), por Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1891-1974), o Donga, veríamos que alguns dos gêneros musicais correntes neste período retraem enquanto outros se dispersam e se subdividem, como e o caso do samba.

Entre os que se encolhem está o lundu, trazido da África na forma de dança e que se transformaria em canto de pura formação brasileira. No Brasil, o lundu adquiriu coreografia e música específicas, vocalizou-se e evoluiu – da dança erótica entre os negros – para canção solo e música de salão.

A partir dessa evolução, especialmente no Rio de Janeiro, então sede do governo colonial, teve início a música urbana, que a Enciclopédia Barsa Cultural define como um tipo especial de música popular que se distanciou progressivamente da música inspirada em elementos folclóricos; no caso, afro-europeus e indígenas.

Mesmo tendo o Rio de Janeiro, já sede do governo federal, montado os primeiros acordes do que viria a ser a música urbana, sob a influência das emboladas de Almirante (1908-1980) e de Noel Rosa (1910-1937); do baião de Luiz Gonzaga (1912-1989) e de outros gêneros, a exemplo do cateretê, batuque, samba e maxixe, foi mesmo a Bahia, com o lundu e a modinha, que forneceu a base para os primeiros elementos rítmicos e melódicos do cancioneiro do Brasil.

Tanto, que o radialista, musicólogo e pesquisador Perfilino Neto (80 anos), baiano de Juazeiro, em depoimento sobre o lundu, para a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, em 2000, lembrou que a trajetória da música brasileira começa em fins do século XVII, com o poeta satírico Gregório de Mattos Guerra (1633-1696), o Boca do Inferno, compondo e cantando lundus, acompanhando-se com a viola de arame.

Perfilino reafirma sua fala no livro Curiosidades e pitorescos do rádio e da MPB (Matarazzo, 2015, pg. 163), destacando que a verdadeira história da Música Popular Brasileira começa com a Bahia ocupando o pioneirismo das manifestações musicais do povo brasileiro.

Este lundu me dá vida

Somente meio-século depois das cantorias de Gregório de Mattos é que o poeta e violeiro fluminense Domingos Caldas Barbosa (1738-1800) passa a difundir essas cantigas. Perfilino defende que o poeta, mulato, filho de português com uma escrava, levada de Salvador para o Rio de Janeiro, cantava, na verdade, modinhas antes divulgadas em saraus pelas ruas de Salvador, que ele teria aprendido com a sua mãe.

Na coletânea em dois volumes, Viola de Lereno, publicada em Portugal (1798 e 1822) e na Bahia (1813), Domingos Caldas Barbosa traz poemas com fraseado próximo ao da modinha e ao do lundu. Também compositor, o poeta juntou traços afetivos do brasileiro de forma distinta da dos portugueses e com abordagem romântica, embora pouco profunda. Em Lisboa, para onde foi para estudar, suas trovas ao som da viola de arame foram muito apreciadas.

Este lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua,
Que lundum me há de matar

Ai lembrança
Amor me trouxe o lundum
Para meter-me na dança?

José Ramos Tinhorão, no livro Domingos Caldas Barbosa, o poeta da viola, da modinha e do lundu (Editora 34, 2004, pg. 123), ao buscar as razões que levaram o primeiro menestrel brasileiro a escrever esse “lundum em louvor de uma brasileira adotiva”, em Viola de Lereno, defende que a palavra lundu vem de calundu, dança ritual religiosa africana (às vezes chamada de lundu), que induz a um estado de possessão ao qual se dá o mesmo nome.

Tinhorão diz, ainda, que, na Bahia, o poeta Gregório de Mattos Guerra mostrava um padre maganão (negociante de animais ou de escravos) a zombar da possessão da sua amante pelos calundus, comentando: “que lhe dava [o padre] dos lundus / se é mais que os lundus magano?”. Daí, Tinhorão raciona que, mais tarde, passou-se a dizer estar alguém “com seus lundus”, “ou calundus”, quando possuído de profunda tristeza e melancolia.

Domingos C. Barbosa

Assim, igualmente apreciado nos principais centros urbanos do Brasil, o lundu chega ao século XIX na qualidade de forma musical dominante e de primeiro ritmo afro-brasileiro, permanecendo nesta condição por muito tempo. É quando os principais compositores da época dão-lhe a formatação musical, enquanto a viola se firma na condição de instrumento de acompanhamento. No início do século XX começa a apresentar os primeiros sinais de perda de evidência.

Antes de tomar a forma musical, e na condição de dança, o lundu era considerado indecente e impedido de ser mostrado nas ruas e teatros, tanto que até o final do século XVIII era conhecido como “folguedo africano”. Para alguns estudiosos, na condição de primeiro ritmo afro-brasileiro em formato de canção, o lundu seria, historicamente, o ponto de origem do samba, em um processo de avanços que envolveria, também, o maxixe, embora não haja um consenso entre os musicólogos.

Historicamente, o ritmo surgiu da fusão de elementos musicais de origens branca e negra, mas tem base na África, de onde veio a bordo dos navios negreiros na forma de dança. Depois, em meio ao sofrimento dos escravos, passou a canto, saltando de dança erótica para canção solo e, depois, para música de salão, tal qual aconteceria com blues, no início do século XIX, surgido no meio dos negros africanos levados para a América do Norte.

A dança ora era branda, ora era selvagem. Mas sempre executada ao som de batuques e toques e de viola, seguindo uma coreografia marcada pela umbigada e o requebrado dos quadris. A encenação era tão carregada de sensualismo que as autoridades da Corte, ao tomarem conhecimento das características, proibiram a dança.
Assim está em Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga:

A ligeira mulata, em trajes de homens,
Dança o quente lundu e o vil batuque,
E, aos cantos do passeio, inda se fazem
Ações mais feias, que a modéstia oculta.
Meu caro Doroteu, meu doce amigo.

Uma dança chamativa

O médico cearense Iderval Reginaldo Tenório (66 anos), pesquisador e folclorista natural de Juazeiro do Norte, lembra que também em seu estado, nos tempos do Brasil colonial, o lundu foi proibido. “O lundu era uma dança muito chamativa, balançava demais os quadris, mostrava a região genitália, balançava-se muito as nádegas, então as mulheres do patronato achavam que aquilo era uma maneira de incentivar ao sexo”, historiou o médico, cirurgião geral, ao jornalista Ari Donato.

Conhecedor da música nordestina, com estudos feitos ao lado do pesquisador Perfilino Neto, o médico Iderval Tenório destaca que “a Bahia tem muito do lundu; esse rebolado da baiana, esse biquíni curto, esse jeito de andar, macio, balançando os músculos glúteos, é típico do lundu, da dança do lundu”. Lembrou que a dança folclórica umbigada tem muito do lundu, ritmo que invadiu o Brasil e chegou à Europa.

Primeira gravação no Brasil

O lundu Isto é bom foi o primeiro ritmo a ter registro fonográfico no Brasil, em 1901, exatamente 15 anos antes de Donga gravar o clássico samba Pelo telefone. Embora a gravação do lundu tivesse ocorrido no Rio de Janeiro, o autor e o intérprete eram baianos. O primeiro, o ator e compositor Xisto de Paula Bahia (1841-1894), de Salvador; o segundo, o cantor Baiano, registrado Manoel Pedro dos Santos (1870-1944), de Santo Amaro da Purificação. Também gravaram mais tarde este lundu, dentre outros, Jorge Veiga, Nara Leão e a dupla Vitor da Trindade e Carlos Caçapava.

Xisto Bahia
Baiano

A primeira composição gravada em disco no Brasil.
Ouça, clicando aqui

Isto é bom
A renda de tua saia
Vale bem cinco mil réis
Arrasta mulata a saia
Que eu te dou cinco e não dez
Isso é bom isso é bom isso é bom que dói
Isso é bom isso é bom isso é bom que dói
Ô São Bento, buraco véio tem cobra dentro
Levanta a saia mulata
Não deixe a renda rastar
Que a renda custa dinheiro
Dinheiro custa ganhar
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Vá saindo seu coió sem sorte
Yayá você quer morrer
Se morrer morramos juntos
Eu quero ver como cabes
Numa cova dois defuntos
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Comigo é nove do baralho velho, hahahai
O inverno é rigoroso
Bem dizia a minha vó
Quem dorme junto tem frio
Que fará quem dorme só
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Os padres gostam de moças
E os doutores também
Eu como rapaz solteiro
Gosto mais do que ninguém
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Aguenta firme na comuta Seu Juca
Se eu brigar com meus amores
Não se intrometa ninguém
Que acabado os arrufos
Ou eu vou ou ela vem
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Me prendam a sete chaves
E assim mesmo hei de sair
Não posso ficar em casa
Não posso em casa dormir
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói
Isso é melhor do que arroz com casca
Diz Calheiros seu Araras.

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