A secular e imortal poesia de Emily Dickinson

No mês de dezembro passado, dia 10, completaram-se 190 anos do nascimento da poetisa estadunidense Emily Elizabeth Dickinson, considerada a maior expressão da escrita na língua inglesa, pela modernidade da sua obra, perto de 1.800 poemas.

A obra de Emily Dickinson é de domínio público, pode ser traduzida ou adaptada; publicada, reproduzida ou distribuída sem a necessidade de autorização.

No Brasil e maioria dos países europeus, o tempo para que uma obra entre em domínio público é de 70 anos a partir da data da morte do autor ou executor. E isso independe de onde ele tenha nascido ou da data de publicação ou gravação.

“A imortalidade estava perto dela; e embora nunca fosse mórbida ou melancólica, ela vivia em sua presença.” – Mabel Loomis Todd, no prefácio de Poems – Series 2, 1891.

Não é preciso ser um quarto
pra se sentir assombrado por fantasmas
Não é preciso ser uma casa
a mente tem corredores muito amplos
que um espaço material
É bem mais seguro um encontro à meia-noite
Com um fantasma externo
Do que encontrar o próprio eu, desarmado
Num lugar desolado.

O trecho de abertura acima, em uma tradução de Júlio Schneider, é do poema Ghosts (Fantasmas), da poetisa estadunidense Emily Dickinson (1830-1886). É um dos quase 1.800 escritos deixados por ela, e digo deixados porque à exceção de alguns poucos poemas publicados em colunas literárias, quando ainda estava viva, a extensa obra de ED somente chegou ao conhecimento do mundo literário cinco anos após seu falecimento.

Conforme o prefácio da edição de 1891, ela dá a entender haver escrito seus primeiros versos em 1862, pois em carta a um dos editores, teria dito: “Não fiz nenhum verso, mas um ou dois, até este inverno.” Estudiosos de Emily Dickinson afirmam que os primeiros saíram na revista literária Republicano, mais em razão da sua amizade com o editor do que por reconhecimento literário.

Ainda sobre os primeiros versos acima, trago o original, publicado em Poems, Second Series, Roberts Brothers, 1891:

One need not be a chamber to be haunted,
One need not be a house;
The brain has corridors surpassing
Material place.
Far safer, of a midnight meeting
External ghost,
Than an interior confronting
That whiter host.

Na tradução de Ivo Bender, em Poemas escolhidos, L&PM, 2011, o trecho apresenta-se assim:

Para as assombrações, desnecessária é a alcova,
Desnecessária, a casa –
O cérebro tem corredores que superam
Os espaços materiais.
Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.

Já na tradução de Vera das Neves Pedroso, Mistério e solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson, de Thomas H, Johnson, Lidador, 1965, o poema assim está:

A gente não precisa ser uma câmara para ser
mal-assombrada;
A gente não precisa ser uma casa.
A mente tem corredores que ultrapassam
Lugares de pedra e cal.
Muito melhor à meia-noite encontrar
Um fantasma de fora
Do que o seu interior enfrentar –
Esse mais frio anfitrião.

EMILY EM MÁGICO VENTO

Ainda a respeito do trecho da abertura, os versos são declamados pelo personagem Willy Richards, também chamado de Poe, na edição brasileira de número 16 da revista italiana em quadrinhos Mágico Vento, da Sergio Bonelli Editore, publicada no Brasil pela Editora Mythos, em outubro de 2003.

É provável que Poe, jornalista atuante na cidade estadunidense de Chicago, estado de Illinois, a quase 1.500 quilômetros de Amherst, em Massachusetts, onde nasceu Emily, desconhecesse tais versos. Ao menos no começo, as aventuras de Poe e Mágico Vento no oeste norte-americano são da década de 1870, e a primeira publicação daqueles versos são de 1890, quando da primeira edição de Poems, editados por Mabel Loomis Todd (1856-1932) e Thomas Wentworth Higginson (1823-1911); seguida de Poems, Second Series, dos mesmos editores, em 1891. A edição de Poems, Third Series, editada por Mabel Loomis Todd, saiu em 1896.

Ainda quanto à citação na revista Mágico Vento, o desvio histórico é aceitável, dada a liberdade do processo de criação, e que em nada desclassifica a riqueza do texto de Gianfranco Manfredi ou a beleza do desenho de Goran Parlov no fascículo A grande visão, muito menos o valor da obra de Emily Dickinson, tida por muitos como a maior poetisa da língua inglesa. Eu, sem condição de tal afirmação, confesso que me identifico com a sua poesia, por vir sem a certeza da publicação, mas porque aflorar, deixar a mente do poeta, sob a pena do enlouquecimento.

Digo que eu escrevo porque estou vivo, porque necessito; assim eu me sinto. Assim é como se sentia Emily Dickinson, reclusa em sua cidade, em sua casa. Em si mesma!

SOBRE A TRADUÇÃO

Augusto de Campos, na edição revista e ampliada de Não sou ninguém, Unicamp, 2015, ensina:

  • O tradutor de poesia tem algo de um intérprete musical, daqueles que voam livres e, imprevisíveis, fazem-nos ouvir de novo, como nunca ouvíramos, a obra do compositor. Deve ser o quanto possível fiel aos significados – mais ao contexto semântico do que ao texto, quando não houver troca possível sem perdas artísticas –, mas, acima de tudo, dar ao poema uma interpretação pregnante em seu idioma, corresponder aos seus achados estéticos e emocionais, surpreender-se e surpreender-nos de novo.

Na apresentação de Poemas escolhidos, Mediafashion, 2017, Ivo Bender (1936-2018) escreveu:

  • No caso dos poemas de Emily Dickinson, onde as dificuldades se acentuam pelo caráter minimalista, para não dizer lacônico, da autora, buscou-se um termo intermediário entre uma versão mais soltas e aquela que procura se manter, dentro das possibilidades oferecidas pelo ato de verter, mais aderida ao texto original. Desse modo, procurou-se evitar duas coisas: a excessiva distância em relação aos originai e, por outro lado, a versão truncada, quando não incompreensível, que resulta normalmente da vontade de permanecer colado ao poema em seu idioma de partida.

Veja mais algumas traduções

VI

A word is dead
(uma palavra está morta)
When it is said,
(quando é dita,)
Some say.
(alguns dizem.)
I say it Just
(eu digo apenas)
Begins to live
(começa a viver)
That day.
(aquele dia.)

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

  • Assim está na tradução do poeta Augusto de Campos, ensinando que deve “dar ao poema uma interpretação pregnante em seu idioma”. Não basta traduzir!

I.

I’m nobody! Who are you?
Are you nobody, too?
Then there ‘s a pair of us — don’t tell!
They ‘d banish us, you know.
How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!

  • Poems, Series 2, Emily Dickinson, editada por T. W. Higginson e Mabel Loomis Todd, Roberts Brothers of Boston, 1891.

14.

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!
Que triste – ser – Alguém!
Que pública – a Fama –
Dizer seu nome – como a Rã –
Para as palmas da Lama!

  • Não sou ninguém – Poemas, de Emily Dickinson. Tradução de Augusto de Campos, Unicamp. 2008.

XXIX.
GHOSTS

One need not be a Chamber – to be Haunted –
One need not be a House –
The Brain has Corridors – surpassing
Material Place –

Far safer, of a Midnight Meeting
External Ghost
Than its interior Confronting –
That Cooler Host.

Far safer, through an Abbey gallop,
The Stones a’chase –
Than Unarmed, one’s a’self encounter –
In lonesome Place –

Ourself behind ourself, concealed –
Should startle most –
Assassin hid in our Apartment
Be Horror’s least.

The Body – borrows a Revolver –
He bolts the Door –
O’erlooking a superior spectre –
Or More –

  • Poems, Series 2, Emily Dickinson, editada por T. W. Higginson e Mabel Loomis Todd, Roberts Brothers of Boston, 1891.

Para as assombrações, desnecessária [é a alcova,
Desnecessária, a casa –
O cérebro tem corredores que [superam
Os espaços materiais.

Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.

Mais seguro é galopar cruzando um [cemitério,
Por pedras tumulares ameaçado,
Que, ausente a lua, encontrar-se a si [mesmo
Em desolado espaço.

O “eu”, por trás de nós oculto,
É muito mais assustador,
E um assassino, escondido em nosso [quarto,
Dentre os horrores, é o menor.

O homem prudente leva consigo uma [arma
E cerra os ferrolhos da porta,
Sem perceber um outro espectro,
Mais ínfimo e maior.

  • Poemas Escolhidos, Seleção, tradução e apresentação de Ivo Bender, Mediafashion, 2017.

A gente não precisa ser uma câmara para ser
mal-assombrada;
A gente não precisa ser uma casa.
A mente tem corredores que ultrapassam
Lugares de pedra e cal.

Muito melhor à meia-noite encontrar
Um fantasma de fora
Do que o seu interior enfrentar –
Esse mais frio anfitrião.

Muito melhor o cemitério atravessar
Por entre as lajes
Que desarmado se defrontar,
Em lugar ermo,

Nós mesmos atrás de nós, ocultos,
Deveríamos assustar-nos mais
Que um assassino, em nossos aposentos
Escondido.

O corpo arma-se com um revólver,
Passa o ferrolho na porta
E não se lembra de um espectro superior,
Ou de mais.

  • Mistério e solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson, de Thomas H, Johnson. Tradução Vera Neves Pedroso, Lidador, 1965.

No Brasil, algumas traduções conhecidas da obra de ED

  • Mistério e solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson, de Thomas H, Johnson. [tradução Vera Neves Pedroso]. Coleção Mimesis. Rio de Janeiro: Lidador, 1965.
  • Cinco poemas de Emily Dickinson [tradução Manuel Bandeira]. in: BANDEIRA, Manuel. Poemas traduzidos (1943/1948). Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
  • Emily Dickinson, por Skinny Domicile.
  • Emily Dickinson: Uma centena de poemas. [tradução, introdução e notas Aíla de Oliveira Gomes; apresentação Paulo Rónai; e prefácio Ashley Brown]. São Paulo: T. A. Queiroz; EdUSP, 1984.
  • Poemas de Emily Dickinson. [tradução, introdução e notas biográficas Ivo Cláudio Bender]. Edição bilíngue. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2002.
  • Emily Dickinson: Alguns poemas. [tradução e ensaio introdutório: “Emily Dickinson: a críptica beleza”, de José Lira; e prefácio de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngue. São Paulo: Editora Iluminuras, 2006, 319p.
  • Emily Dickinson – Poemas escolhidos (bilíngue). [seleção, tradução e introdução Ivo Cláudio Bender]. Edição Bilíngue. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2007, 128p.
  • Emily Dickinson – Não sou ninguém. Poemas. [traduções Augusto de Campos]. Edição bilíngue. Campinas: Unicamp, 2009, 109p.
  • Emily Dickinson: Loucas noites (Wild nights). [tradução Isa Mara Lando]. Edição Bilíngue. Barueri SP: Disal Editora, 2010, 208p.
  • A voz branca da solidão – Emily Dickinson. [tradução José Lira). Edição bilíngue. São Paulo: Iluminuras, 2011, 352p.

Dados extraídos do Templo Cultural Delfos

Veja mais sobre Emile Dickinson em:

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