Para que não se esqueça de Damário Dacruz (1953-2010)

No último dia 21 deste mês de maio de 2019, transcorridos nove anos da morte do poeta Damário Dacruz (1953-2010), voltei a lembrar-me de nossas conversas na Escola de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde estudamos jornalismo. Damário usava frases curtas e rápidas, como um relâmpago. Sempre associei seu modo de falar ao seu fazer. Ao falar, Damário já era ação.

Rimos bastante, certo dia, quando Damário falou da pretensão de produzir um pôster com a foto de um telefone de lata, brinquedo com o qual as crianças imitam diálogos. “Duas latas e um cordão ligam a um mundo imaginário”, disse ele. “Bom pôster, não acha?”, quis saber, embora já o soubesse.

“Deixa de besteira” – eu respondi com um sotaque mineiro. “Já brinquei tanto com esse trem na minha infância, não tem novidade…”.
“Que estímulo!” – ironizou, realçando a beleza que antevia no telefonizinho. “Faça um pé de lata – provoquei – para andar como se fosse perna de pau”. Ele respondeu: “Agora você está com bestagem”.

Caro Damário, ficamos, aqui, vivendo a vida, pois, conforme disse você, meu amigo, em um verso seu, “a vida só vale a vida”. Vou pegar esse telefone de lata e falar com você, em ligação imaginária.
“Vá mesmo!” – diria a mim, com um riso maroto. E quer saber o que vou dizer? Direi: “Sua poesia me trouxe um grande bem, meu amigo.”

Leia alguns poemas de Damário
Quem foi Damário Dacruz

A PARTIDA DE DAMÁRIO DACRUZ

Na madrugada do dia 21 de maio de 2010 falecia em Salvador o poeta, jornalista, líder estudantil e sindicalista Damário da Cruz, aos 56 anos de idade.

Poucos meses mais velho do que ele, eu fui um dos seus colegas de turma, entre 1974 e 1978, no curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia.

Também estivemos juntos no jornal A TARDE; eu na reportagem, ele na revisão de textos. Foi uma época em que a redação, por conta da sua então característica, despida da atual informatização, permitia com mais frequência a proximidade entre as pessoas. Sem saudosismo, penso que o companheirismo predominava nas relações.

Damário da Cruz era, e continua sendo, o meu poeta. Foi por seu intermédio que li Rainer Maria Rilke (1875-1926) pela vez primeira, quando tomei, como se fossem para mim as “Cartas a um jovem poeta”. Isso, por que, certo dia, na Escola de Comunicação, ele me disse, com a franqueza que o acompanhava, ao ler alguns versos meus que eu o mostrara:

“Ninguém pode aconselhar ou ajudar você, ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo” – disse-me, para depois perguntar, e, em seguida, ele mesmo responder: “Sabe quem disse isso, a alguém que lhe mostrou seus primeiros versos? O poeta Rainer Maria Rilke. Ari, você deveria ler o livro Cartas a um jovem poeta”.

Li o livro. Na verdade, passei dias a devorar a série de dez cartas endereçadas pelo poeta ao jovem Frans Xaver Kappus, entre 1903 e 1908. Em verdade, não sei se comprei o livro, ou se me foi dado por Damário. Creio que ele me presenteou, pois me disse, à época, que eu deveria repassá-lo a quem porventura, de igual forma, me procurasse. Assim o fiz.

Damário da Cruz continuou a ler os versos que eu fazia e muito me ajudou na arte de amar a poesia e de entender a importância do poeta na abertura da mente humana. Aqueles conselhos e sugestões vindos de alguém que tinha a minha idade, e embasados no que ensinava o poeta austríaco, muito pesaram para minha formação cultural.

Disse a ele isso várias vezes. A última foi quando almoçávamos, em um restaurante simples, no Centro Administrativo da Bahia, cerca de oito meses antes de ele vir a falecer. Que mais preciso ouvir do poeta que escreveu (em Todo risco): “A possibilidade de arriscar é que nos faz homens”. Nada, nada. E o que aprendi com ele e, por seu intermédio, com a poesia de Rainer Maria Rilke? Muito, muito.

Com Damário da Cruz aprendi que não basta querer, desejar escrever ou fazer versos. Citando Rilke, ele me ensinou: busque o motivo que leva você a escrever; veja se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; pergunte a você mesmo: se me fosse impedido de escrever, eu sobreviveria?

Lendo a primeira carta do poeta austríaco ao seu missivista eu fiz a mim a forte pergunta, nas tranquilas noites de verão de Salvador: “Sou mesmo forçado a escrever?”. E meu colega de sala de aula, à época com pouco mais de 20 anos de idade, me dizia, com segurança: se a resposta for um “sou”, então vá em frente, mas liberte-se do seu umbigo, universalize.

Os ensinamentos de Rilke, repassados por Damário da Cruz, ainda estão vivos, orientando-me na construção de textos, vitais na minha profissão: “Evite formas usais e demasiado comuns: são as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes”.

Tenho procurado fugir dos motivos gerais do cotidiano, busco relatar mágoas e desejos, pensamentos passageiros, a fé em qualquer beleza, com intimismo e sinceridade. Ainda hoje, ouço Damário a repetir o grande poeta Rilke: “Use, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança”.

Exemplos do que foi Damário não me faltam, como está em Caixa-preta (Salvador, EPP Publicações e Publicidade/Banco Capital, 2003):

Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.

Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.

O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.

Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.

Ou em Certo voo (em Segredos das Pipas):

Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.

Cada
pássaro
sabe
a rota
do retorno.

Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.

Damário da Cruz, que deu-nos, como despedida, os versos de Gran finale, feito dias antes da sua morte, e distribuído pela família.

Avise aos amigos
que preparo o último verso.
A vida
dura menos que um poema.
E no alvorecer mais próximo
saio de cena.

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