Possibilidades da viola brasileira; casamento com o erudito

Em 1971, eu estava a passar os últimos meses na minha cidade natal, Guanambi, no sudoeste da Bahia, já próximo à divisa com Minas Gerais; no ano seguinte, mudar-me-ia para Salvador. Com 18 anos de idade, mais rural que urbano, eu vivia um ambiente musical único, reflexo do movimento da Jovem Guarda (1965-1970), cujos sons impediam-me de escutar a sonoridade da viola, um instrumento presente na região.

Enquanto ouvia as canções Jesus Cristo, de 1970; Detalhes, Debaixo dos caracóis dos seus cabelos e Amada amante, de 1971, de Roberto Carlos, ou chorava pelo término de The Beatles, a quase furar o LP Let it be, a Gravadora Fermata lançava, em São Paulo, um disco do qual só vim tomar conhecimento 38 anos depois!

Com o título Bach na Viola Brasileira – Transcrições para viola de Theodoro Nogueira e solista Geraldo Ribeiro –, o LP reunia quatro faixas no Lado A: Prelúdio (da Partita nº 3 para violino solo), Loure (da Partita nº 3 para violino solo), Gavota (da Partita nº 3 para violino solo) e Fuga (da Primeira Sonata para violino solo) e uma no Lado B: Chacona (da Partita nº 2 para violino só).

Sobre o disco, o maestro baiano Geraldo Ribeiro (1939), natural de Mundo Novo e criado em Assis (SP), anos mais tarde, queixar-se-ia à pesquisadora paulista Rosa Nepomuceno, quando esta recolhia material para seu livro Música Caipira, da roça ao rodeio (São Paulo: Editora 34, 1999): “Não houve interesse algum pelo disco. Fiz algumas apresentações em Brasília e mais nada”.

Capa do LP Bach na Viola Brasileira (Fermata, 1971)

Em 1963, ocorreu outra tentativa de exploração das possibilidades eruditas da viola: o paulista Antônio Carlos Barbosa Lima (1944-1987) gravara, pela Chantecler, o LP Concertino para Viola Brasileira e Orquestra de Câmara, com sete prelúdios, nos modos da viola brasileira, todos do violinista e maestro Ascendino Theodoro Nogueira. Mas esse casamento do erudito com o popular teve a cerimônia retardada.

Esses dois primeiros trabalhos de exposição das possibilidades desse instrumento, gravados nos LPs Viola Brasileira – Concertino para Viola Brasileira e Orquestra de Câmara (Chantecler/1963) e Bach na Viola Brasileira (Fermata/1971), foram escritos, respectivamente, em 1963 e 1968 por Ascendino Theodoro Nogueira.

Capa do LP Viola Brasileira (Chantecler, 1963)

Ascendino Theodoro Nogueira

Nascido em Santa Rita do Passa Quatro em 9 de outubro de 1913, Theodoro Nogueira e seus familiares logos se transferiram para Araraquara, no interior de São Paulo, onde viria a falecer no dia 4 de outubro de 2002. Também em Araraquara estudou violino, composição e tornou-se um pioneiro na utilização da viola caipira, que ele preferia chamar de viola brasileira.
Entre outras obras, compôs um Concertino para canto e piano (1958) e Improvisos para violão (1958/1959). Seus alunos e admiradores destacam o papel pioneiro que ele desempenhou no estudo técnico-musical da viola caipira, sua prática de execução e sua integração no repertório erudito.
Theodoro Nogueira escreveu o artigo Anotações para um estudo sobre a viola: Origem do Instrumento e sua difusão no Brasil, usado na contracapa do LP em que apresenta o trabalho do solista Geraldo Ribeiro.
Segundo Theodoro Nogueira, o professor Antônio Carlos Barbosa Lima foi o pioneiro na apresentação das possibilidades clássicas da viola, com a gravação de seus prelúdios e o concertino magnificamente. Depois é que entra Geraldo Ribeiro, solista das obras de Johann Sebastian Bach (1685-1750), completando o seu trabalho sobre a viola brasileira.

OUTROS VIERAM

RUI TORNEZE DE ARAÚJO (1963), nascido em São Paulo (SP), foi um dos primeiros a desenvolver o ensino didático da viola brasileira caipira por música. Possui três livros especificamente para esses estudos, publicados pela Editora Irmãos Vitale. Um deles é Viola Caipira: Estudo Dirigido (São Paulo: Irmãos Vitale, 1999), prefaciado pela folclorista Inezita Barroso.

BRAZ DA VIOLA (1961), violeiro natural de Consolação (MG), é regente-fundador da Orquestra de Viola Caipira de São José dos Campos desde 1991. Publicou, entre outros, Manual do Violeiro (São Paulo: Editora Ricordi, 1999), que traz exercícios práticos e dicionário de acordes nas afinações Cebolão e Rio-Abaixo.

ROBERTO CORRÊA (1957), mineiro de Campo Verde, violeiro, compositor, pesquisador e professor de música, formado pela Universidade de Brasília. É autor do livro A arte de Pontear Viola (Brasília: Ed. Autor, 2000), voltado para a viola e sua tradição.

FERNANDO DEGHI (1962), nasceu em São Paulo (SP), desenvolve pesquisador, compositor e instrumentista, tem seu trabalho em torno da recuperação e da divulgação da viola brasileira: suas composições exploram as possibilidades deste instrumento. É autor do livro Viola brasileira e suas possibilidades (São Paulo: Violeiro Andante Editora, 2001).

Você pode acessar o Face do mastro baiano aqui.
No site P.Q.P Bach, você pode baixar, em MP3, o disco Bach na Viola Brasileira.
Ouça um trecho de Fuga, sonata para violino solo.

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