“Desejo de filha”

Eu estava na lanchonete quando pai e filha entraram e se dirigiram ao balcão onde ficavam os salgados, doces, bolos e petiscos. A menina devorou tudo com os olhos e, discretamente, falou do que lhe agradava. O pai respondeu-lhe algo. Ela riu, censurou-lhe as palavras com um franzir de sobrancelhas e, depois, tocou-lhe, carinhosamente, a ponta do nariz.

Aquela alegria trouxe-me doces imagens da minha filha quando pequena e, então, prestei atenção nos dois. Poucos dos presentes ouviram o pedido da menina, mas as palavras embargadas do pai ressoaram na sala:

– Se você escolher o salgado eu não poderei pagar o suco; se você pedir o suco, não terei dinheiro para o salgado. Veja o que for melhor!

– Quero o suco! –, respondeu a menina.

E ambos voltaram às suas confidências, em voz baixa e amigável. Pai e filha eram como uma só pessoa, numa aura que contaminava a todos na lanchonete. Os dois permaneceram conversando, baixinho, coisas que somente ambos ouviam. Eram sussurros, acompanhados de sorrisos e afagos. O suco estava sendo preparado. Nem a menina, de 14 anos, nem o pai prestavam mais tenção ao balcão, até que foram surpreendidos com uma abordagem:

– Você se incomoda se eu pagar a merenda da menina? –perguntou um senhor, enquanto abria a carteira, diante do caixa, para saldar a sua conta.

O pai ficou atordoado, sem ter resposta. Olhou para a filha,como a pedir ajuda, depois retornou as vista para o homem que lhe oferecia auxílio. Mas antes que dissesse algo, a menina respondeu:

– Não, senhor! Não é preciso.

Assim que o homem deixou a lanchonete, o pai perguntou à filha porque não aceitara a oferta do desconhecido, de lhe pagar a merenda. Amenina riu um riso angelical e respondeu:

– Você me deu o suco com amor de pai; aquele homem quis pagar a merenda porque sentiu pena de mim. Eu não quero compaixão, quero que alguém dê trabalho a você.

Conto vencedor de concurso promovido com jornalistas pela Ótica Ernesto, em agosto de 2001, para marcar a passagem do Dia dos Pais, e publicado no jornal A Tarde, de Salvador (BA), em forma de mensagem publicitária pela ótica.

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